domingo, 11 de dezembro de 2011

Brincar de pensar

A arte de pensar sem riscos. Não fossem os caminhos da emoção a que leva o pensamento, pensar já teria sido catalogado como um dos modos de se divertir. Não se convidam amigos para o jogo por causa da cerimônia que se tem em pensar. O melhor modo é convidar apenas para uma visita, e, como quem não quer nada, pensa-se junto, no disfarçado das palavras.

Isso, enquanto jogo leve. Pois para pensar fundo – que é o grau máximo do hobby – é preciso estar sozinho. Porque entregar-se a pensar é uma grande emoção, e só se tem coragem de pensar na frente de outrem quando a confiança é grande a ponto de não haver constrangimento em usar, se necessário, a palavra outrem. Além do mais exige-se muito de quem nos assiste pensar: que tenha um coração grande, amor, carinho, e a experiência de também se ter dado ao pensar. Exige-se tanto de quem houve as palavras e os silêncios – como se exigiria para sentir. Não, não é verdade. Para sentir exige-se mais.

Bom, mas quanto a pensar como divertimento, a ausência de riscos o põe ao alcance de todos. Algum risco tem, é claro. Brinca-se e pode-se sair de coração pesado. Mas de um modo geral, uma vez tomados os cuidados intuitivos, não tem perigo. Como hobby, apresenta a vantagem de ser por excelência transportável. Embora no seio do ar ainda seja melhor, segundo eu. Em certas horas da tarde, por exemplo, em que a casa cheia de luz mais parece esvaziada pela luz, enquanto a cidade inteira estremece trabalhando e só nós trabalhamos em casa mas ninguém sabe – nessas horas em que a dignidade se refaria se tivéssemos uma oficina de consertos ou uma sala de costuras – nessas horas: pensa-se. Assim: começa-se do ponto exato em que se estiver, mesmo que não seja de tarde; só de noite é que não aconselho.

Uma vez por exemplo – no tempo em que mandávamos roupa para lavar fora – eu estava fazendo o rol. Talvez por hábito de dar título ou por súbita vontade de ter caderno limpo como em escola, escrevi: rol de… e foi nesse instante que a vontade de não ser séria chegou. Este é o primeiro sinal do animus brincandi, em matéria de pensar – como – hobby. E escrevi esperta: rol de sentimentos. O que eu queria dizer com isto, tive que deixar para ver depois – outro sinal de se estar no caminho certo é o de não ficar aflita por não entender; a atitude deve ser: não se perde por esperar, não se perde por não entender.

Então comecei uma listinha de sentimentos dos quais não sei o nome. Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto? A saudade que se tem de pessoa de quem a gente não gosta mais, essa mágoa e esse rancor – como se chama? Estar ocupada – e de repente parar por ter sido tomada por uma súbita desocupação desanuviadora e beata, como se uma luz de milagre tivesse entrado na sala: como se chama o que se sentiu?

Mas devo avisar. Às vezes começa-se a brincar de pensar, e eis que inesperadamente o brinquedo é que começa a brincar conosco. Não é bom. É apenas frutífero.
 (Clarisse Lispector - 19 de agosto de 1967)

Lendo essa crônica lembro-me das tantas vezes que já me perguntei sobre o pensar. Pensar é algo bom, que pode nos levar aos lugares mais incríveis que poderíamos conhecer. Mas ao mesmo tempo é perigoso, vem de mansinho, viciando um pouco a cada instante e, quando vê, já é tarde demais. A necessidade está atrelada dentro de você. 
E sobre essa coisa de sentimentos? E a necessidade de nomearmos a tudo e a todos? Não compreendo. Tem momentos em que apenas sinto e que não quero falar sobre isso. Parece, muitas vezes, ser um pouco pobre colocarmos em palavras o inexplicável. 
O silêncio. O insuperável silêncio que faz com que você chegue tão perto de você como nunca antes esteve. Faz ouvir aqueles pensamentos que estavam guardados lá no interior de sua alma. Será por isso que as pessoas tanto fogem do silêncio? Será que existe aquele medo de escutar o que não se quer ouvir de si mesmo?
O pensamento pode ser como uma grande brincadeira, como algo bom, mas também pode ser a nossa maior tormenta, andar em círculos. Não deveríamos pois, saber os limites do pensar? Será que isso existe de alguma forma? Alguém já enlouqueceu de tanto pensar? 
A vida tem muitas dúvidas e poucas são as respostas. Mas será que são as respostas que devemos buscar? Ou devemos ir ao encontro das perguntas certas? São os questionamentos que nos fazem caminhar. Que bela é essa arte de pensar.

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