domingo, 29 de outubro de 2017

Um tempo depois da transição

Em fevereiro de 2013 eu escrevia sobre transição e o quanto era bom voar. Inocente, nem sabia o quão longe estamos das nuvens. Sempre tive uma vida relativamente agitada. Tanto que uma certa pessoinha costumava dizer que minha vida parecia a do ninja loki. Entretanto, nos últimos tempos andei fazendo coisas que jamais imaginei que algum dia iria fazer. Onde últimos tempos = ~4.5 anos. Bom, vamos do começo...
Em 2012 eu tinha dito pros meus pais que no máximo em três anos eu gostaria de sair de casa para morar sozinha. Nem eu, nem eles, tinham ideia de que isso aconteceria bem antes do que esperávamos. E numa casa um pouquinho longe, o que resultou no fato de ainda não terem vindo me visitar. Isso não por muito tempo, porque já já será a primeira visita deles. Eu tinha medo, mesmo sendo uma mudança temporária e por tempo determinado. Sábios aqueles hippies com Alzheimer da década de 1970, que me disseram: "Vaza, mina. Se der problema, só volta...". Acho que sempre tive uma tendência a ver e querer as coisas como permanentes, quando na verdade tudo é transiente. Os budistas é que manjam dessas putarias (e aparentemente a galere que usava LSD nos anos 70 [whoa! Será que ele era budista e eu não sabia? o.O]). E assim fui posta numa caixa e enviada pra uma terra muito doida, com pessoas de tudo quanto é lugar. Mas esqueceram de colocar o endereço da volta, e aí fui ficando e nunca mais voltei. Ainda fico chocada quando penso em tudo que aconteceu nesse período e penso que foi um período tão curto de tempo.
Eu tinha uma fama também, dentro da família, que dizia que eu era perdida e nunca terminava nada nessa vida (detalhe que me lembro de ter começado e não ter terminado licenciatura em matemática e eras isso, mas né? Deixa os boatos rolarem e dizerem o que quiserem [isso aprendi no período de 2010/11, um pouco antes de criar o blog]). Quando mudei da matemática para a ciência da computação (cic), minha escolha de curso seria na realidade engenharia da computação. Na época não existiam as quotas, eu achei que ia ser mais fácil entrar na cic e assim comecei o curso. Um curso que é praticamente voltado para Engenharia de Software imho ("uma delícia... de sorvete!"). A galerinha de lá era pelo menos motivada e assim segui até o fim da bagaça.
Pro mestrado, eu podia seguir na cic (e ter que seguir um currículo meio fixo, com a vantagem de poder aproveitar mais de oito mil créditos) ou mudar para engenharia elétrica e da computação, aka EIT (com mais liberdade de escolha das disciplinas, mas tendo que me virar por conta com VHDL e conceitos de técnicas digitais que eu não era muito familiarizada). Obviamente fui pra segunda opção, que seria um desafio, mas que pelo menos eu ia poder decidir o que eu ia querer ou não estudar e pelo menos ia sair dessa área de programação e mimimi. E essa decisão foi ótima, porque, no fim das contas, descobri que eu posso não ser tão genial quanto a galerinha que só tira A nas disciplinas, mas tenho uma característica que é bem útil: flexibilidade. Aparentemente, mesmo sem ter certas bases, eu aprendo de uma forma que é suficientemente boa para entender os conceitos e usar, mas não suficientemente boa para tirar notas boas em provas. Como a vida não é feita de provas, tamo tudo no lucro :P E assim fiz dois laboratórios em VHDL, cadeiras de síntese e otimização de circuitos, programei robôs, aprendi sobre verificação formal, programei uma placa de IoT e um servidor para receber e enviar dados criptografados em 30h de trabalho, e por aí vai. Quase tudo começando do zero e "indo ver onde ia dar". E faz umas três semanas que terminei tudo, com direito a estrelinhas na monografia e tudo. Monografia inclusive que tá bem ali na fronteira de EIT, cic e matemática. Lou-cu-ra, bróder!
E durante o período do mestrado, não foram só altas aventuras nas disciplinas, pois segui minhas raízes de ninja loki e trabalhei com mil coisas que nunca tinha visto na vida. Quando vim parar aqui, fui para o departamento de microeletrônica do EIT (oh yeah, com zero experiência) implementando coisas (já disse o quanto eu amo programar? #sóquenão) pra integrar FPGA, CPU, GPU, etc (yey!). No fim era programação web, e se tem uma coisa que eu gosto mais do que de programar, é programação web, só que ao contrário. De qualquer maneira, terminei o projeto. E foi aí que comecei a viver a vida loka, porque decidi que não ia renovar meu contrato com eles, já que não era na minha área e porque eu tava ficando bem infeliz. Sem nenhum outro emprego em vista, continuando num outro emprego não técnico que eu tinha, vi uma vaga na área de radio-frequência e sistemas de posicionamento. Apliquei, fui aceita, programei algumas coisas lá em Matlab e C++, montei hardware, soldei cabo, e aí me liguei que programar não era chato. Era ok até. Eu não curto é coisas pra usuário, aparentemente, mas backend é uma delícia :) Nesse lugar me ofereceram uma vaga para escrever a monografia com eles, e isso seria muito bom, porque eu não precisaria me procurar em arrumar um emprego e trabalhar em algo pra poder comer enquanto trabalhasse na monografia. Só que eu já tava há muito tempo vivendo o hippie way of life e optei por fazer na universidade, porque eu ia tentar depois fazer um doutorado por lá. Quando fui falar com meu então provável futuro orientador, pedi um emprego também. Aí ele me arranjou algumas horas semanais pra ser tutora de uma disciplina. O que era ótimo porque eu sempre quis dar aula, mas era ruim porque o número de horas não era o suficiente. Não perdendo a fé, algo que ultimamente observo que tenho pra dar e vender, acetei a oportunidade. E quando pensei que ia precisar ver isso aí, recebi um e-mail perguntando se eu não queria ser tutora de um projeto de verificação de sistemas digitais (VDS). Os contratos eram todos por tempo determinado e eu ainda não tinha nada em vista, mas segui a vida, enquanto brincava de trabalhar na monografia. O final dos contratos estavam chegando, eu ainda não tinha um trabalho pronto para apresentar, mas o pessoal do projeto de VDS decidiu que seria uma boa ideia termos um software para analisar a performance dos trabalhos dos alunos e perguntaram se eu não queria desenvolver. Aceitei e esperei por mais um emprego bater na minha porta. Mentira, só estava muito estressada com tudo e deixei pro meu eu do futuro ver isso. E de fato recebi um e-mail perguntando se eu não queria ser tutora de uma disciplina que é conhecida por ser difícil. Ela é obrigatória para o pessoal da informática, mas apesar de eu ser de EIT eu acabei fazendo. O que já me perguntei o quão esperto havia sido isso porque no fim das contas ela foi bem trabalhosa, eu não passei na primeira prova e na minha segunda tentativa passei com uma nota relativamente boa, mas que não refletia o quanto eu sabia da matéria. Foi bem estressante. Quando recebi o e-mail, pensei se eu seria apta a ensinar pessoas a matéria. Pensei que teriam muitas coisas que eu não faria ideia se saberia responder. E pensei que essa seria a primeira disciplina de verdade que durante um semestre eu teria que apresentar um conteúdo difícil ali na frente de uma turma de muitos alunos. De qualquer forma eu precisava do dinheiro e pensei: "por que não tentar?". E sinceramente foi uma das melhores coisas que eu poderia ter feito. Todos os medos que eu tinha de dar aula ou de não ser suficientemente competente para dar aula em informática, desapareceram. Me tomou muito tempo, mas em compensação os alunos foram muito receptivos e na avaliação final da disciplina fui bem positivamente avaliada. O que me fez pensar que eu poderia sim voltar a ideia de dar aula (que é algo que desde criança eu gostaria de fazer) e uma confirmação que eu deveria seguir no caminho para o doutorado. E assim eu segui :-)
Atualmente já faz um ano que eu estou no doutorado, uns dois meses que eu estou trabalhando na área de pesquisa do doutorado, já fui tutora de outras disciplinas, já substitui o professor em uma aula que ele e meus colegas estariam viajando, já orientei um aluno de mestrado na tese dele e atualmente estou orientando outra, entre tantas outras coisas. Meu atual estado mental é de felicidade e gratidão, pois encontrei no meu caminho muitas pessoas bacanas. Meus colegas de trabalho são ótimos e o ambiente muito descontraído, nunca deixando isso afetar a performance. Acho que é a primeira vez que sinto que estou no caminho certo profissionalmente e sendo bem sincera, acho que todos os nãos e as voltas que pareciam não serem relacionadas com o caminho que eu queria seguir foram de extrema importância. Elas fizeram com que eu treinasse habilidades que eu não imaginei que fossem ser importantes ou me abriram oportunidades em momentos de necessidade.
Além desse lado profissional, tiveram muitas aventuras também em outras áreas. Durante o estágio eu perdi o medo de falar a língua local. Minha orientadora foi ótima e não se importava que eu falasse tudo gramaticalmente errado e também que eu usasse palavras erradas totalmente fora de contexto. Ela sempre se esforçou muito para me entender e incentivar. Depois dessa experiência, tentei continuar me esforçando para me comunicar e aprender o máximo que eu pudesse com as pessoas em sua língua nativa. Atualmente tenho muitos professores no meu dia a dia, cada um me ensinando do seu jeito. Observei que a língua é realmente um objeto de inclusão na sociedade. Claro que é possível fazer amigos quando se fala em inglês, mas notei que as fronteiras são muito menores quando tu se adapta e se coloca em situações em que tu não demanda outras pessoas se colocarem fora da sua zona de conforto para se comunicar contigo. Isso diminui barreiras e te deixa automaticamente um passo mais próximo das outras pessoas. Além de abrir outras oportunidades, pois existem muitas atividades fora do meio acadêmico que só são oferecidas na língua nativa (algumas até na própria universidade). Fiz um curso de introdução ao sueco que foi ministrado na língua local por uma finlandesa (uma lou-cu-ra! :P) onde conheci uma menina daqui. Fiz um curso de barista e latte arte onde conheci pessoas encantadoras e que eu jamais teria conseguido saber mais sobre elas por falta de uma língua em comum. Faço parte de um grupo de dança em que muitas pessoas falam na maior parte do tempo dialeto (o que sou muito grata aos meus colegas de trabalho, pois sem eles eu teria muito mais dificuldade de entender o pessoal da dança). Tenho adquiridos hábitos mais saudáveis o que tem me deixado muito satisfeita com as escolhas.
E isso foi um resumo de todas essas coisas que jamais imaginei que iria fazer e estou fazendo. Claro que tive momentos de dificuldade e stress, mas observando como as coisas foram se alterando e modificando, cada vez mais tem sido recompensador. Me sinto muito grata a todas as pessoas que participaram nessa missão de me incentivar a voar e sair da zona de conforto. Hoje em dia vejo situações novas como um desafio divertido e como uma porta que provavelmente vai me abrir tantas outras para talvez descobrir novas paixões e coisas sobre mim mesma e a vida.

domingo, 25 de junho de 2017

Poesia a quatro mãos

- Onde está a poesia e a arte? - indagou o jovem, velho conhecido.
- Pensas que as coisas que faço são arte? - replicou a jovem, estupefata.
- Poderiam ser.
E así eles bailaron e troulearon noite dentro.

domingo, 21 de agosto de 2016

As aventuras da vida

Procure pessoas que quando perguntes: "Como foi o teu final de semana?", narrem como se fosse uma epopeia. Que te conte com aquele entusiasmo que te contagia. Que façam te sentir bem, mesmo que tu não estivesse lá, mas como se tivesse tomado parte. Mesmo que o final de semana tenha sido ficar em casa existindo.

Aquelas pessoas com quem o silêncio ali basta, estar presente no momento. E que compartilhem segredos, coisas especiais. Que juntos possam criar um mundo de fantasias, onde as palavras tomam outro significado. E que tanto faz se é coerente ou não, o importante é que se divirtam e se respeitem.

Pessoas que te tragam um sentimento tão bom que te façam contar os dias para vê-las. E que te façam ter vontade de abrir espaço na agenda e cancelar tudo que tem pre fazer, só para estar com elas. Pessoas que façam com que tu te sinta inconfortável por elas estarem falando com outras. Não pelo fato de que sinta ciúmes, mas porque tens medo de que os outros possam não dar o valor que elas merecem.

A vida pode nos oferecer tantas coisas... e a cada minuto a gente pode escolher. Nós sempre temos uma escolha. E não existe certo e errado, ou uma resposta universal. O melhor, é o melhor para aquele indivíduo, e não a nada de errado com isso.

sábado, 23 de julho de 2016

Pessoas

Eu amo pessoas.
Amo sim.

A forma como elas se movem;
A forma como elas comem;
A forma como elas falam.

Gosto de observar, e ouvir, e sentir...
Amo estar ali, sem ser notada.

Os caminhos que elas percorrem
Os desafios que se apresentam
Os anseios, os medos
Observo.

Muitas vezes eu amo,
algumas amo em segredo,
e nem conto o quanto eu as amo.
E amar é saber deixar livre...
ficar feliz quando a outra pessoa está feliz
E nada mais.
Porque só isso basta.

Algumas vezes eu digo,
porque é tanto amor
que mal cabe dentro de mim
E aí tenho que dividir.
E amor dividido multiplica.

O que não se sabe
É que, apesar de ter pessoas que amo,
Tem umas pessoas que são as minhas preferidas.
E essas sim tem um lugarzinho especial,
Numa caixinha bem pequenininha,
Que guardo com um cuidado imenso
E sempre levo comigo pra onde eu vou.

Algumas sabem que estão lá,
Outras não têm nem noção.
Mas não importa,
Porque o que importa
É que elas sempre vão estar no meu coração S2

domingo, 7 de fevereiro de 2016

Sobre ser forte

Houve momentos que pensava que não queria ter passado por algumas coisas que passei. Ultimamente tenho repensado isso. Cada pedaço do que passamos faz com que a gente seja o que somos. E isso afeta a forma como nós nos relacionamos com o mundo e com as outras pessoas. Quando algo de ruim acontece com a gente, eu costumava pensar que tinham duas formas de lidar com isso. Sempre fui alguém de extremos, muito binária. Hoje aprendi que existem diversas alternativas. Ainda é difícil de ter essa visão, mas têm sido cada vez mais fácil.

Costumava me ver como alguém muito frágil e ficava achando injusto quando diziam que eu era forte e que por isso escolhiam machucar a mim do que a outra pessoa quando tinha que escolher (como se essas fossem ser as únicas alternativas). Hoje em dia, não sei se de tanto escutar que sou forte, não me considero alguém tão frágil. E por ser forte eu não digo não chorar, não sentir, não ficar triste. Isso faz parte. Ser forte foi ressignificado para mim durante 2015. Ser forte é ser capaz de apesar de tudo, continuar, aprender, ser resiliente. Saber que isso é vida e que tudo faz parte. Saber que é importante sentir as desilusões, as frustrações, as adversidades. E ter a consciência de que nada é permanente.

Talvez se eu não tivesse vivido certas coisas, eu não seria tão compreensiva em certos tópicos, nem me conheceria a ponto de saber o momento de pedir ajuda, traçar limites. Claro que como tudo na vida, tem ainda um caminho bem grande pela frente, e estamos sempre aprendendo, mas já me sinto feliz de conhecer o caminho que escolhi pra caminhar. Olhar pra trás e saber o quanto que se caminhou e ficar satisfeito.